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Revista Espírita de Janeiro de 1858 - Primeiro ano/Janeiro a Março
25-06-2011 - 15:31
 

Os Médiuns Julgados

Janeiro de 1858


Os antagonistas da Doutrina Espírita se apossaram, zelosamente, de um artigo publicado pelo Scientifc American, do dia 11 de julho último, sob o título: “Os Médiuns Julgados”. Vários jornais franceses reproduziram-no como um argumento sem réplica; nós mesmos o reproduzimos, fazendo seguir de algumas observações, que lhe mostrarão o valor.

Há algum tempo, uma oferta de quinhentos dólares (2.500 francos) foi feita, por intermédio do “Boston Courier”, a toda pessoa que, na presença e em satisfação de um certo número de professores, da Universidade de Cambridge, reproduzisse alguns desses fenômenos misteriosos que os espiritualistas dizem, comumente, terem sido produzidos por intermédio de agentes chamados médiuns.

O desafio foi aceito pelo Doutor Gardner, e por várias pessoas que se vangloriavam de estar em comunicação com os Espíritos. Os concorrentes se reuniram nos edifícios Albion, em Boston, na última semana de junho, dispostos a fazerem a prova da sua força sobrenatural. Entre eles, notavam-se as jovens Fox, que se tornaram celebres pela sua superioridade nesse gênero. A comissão encarregada de examinar as pretensões dos aspirantes ao premio, se compunha dos professores Pierce, Agassiz, Gould e Horsford, de Cambridge, todos os quatro sábios muito distintos. As experiências espiritualistas duraram vários dias; jamais os médiuns encontraram mais bela ocasião de colocarem em evidência seu talento ou sua inspiração; mas, como os sacerdotes de Baal, ao tempo de Elias, invocaram em vão suas divindades, assim como o prova a passagem seguinte, do relatório da comissão:

A comissão declara que o Doutor Gardner não tendo se saído bem em lhe apresentar um agente, ou médium, que revelasse a palavra confiada aos Espíritos em um quarto vizinho, que lesse a palavra inglesa escrita no interior de um livro ou sobre uma folha de papel dobrada; que respondesse uma questão que só as inteligências superiores podem responder; que fizesse ressoar um piano sem tocá-lo, ou avançar uma mesa, em um pé, sem o impulso das mãos; mostrando-se impotente para dar, à comissão, testemunho de um fenômeno que se pudesse, mesmo usando uma interpretação larga e benevolente, considerar como o equivalente das provas propostas; de um fenômeno exigindo, para sua produção, a intervenção de um Espírito, supondo ou implicando, pelo menos, essa intervenção; de um fenômeno desconhecido, até hoje, à ciência, e cuja causa não fosse, imediatamente, assinalável para a comissão, palpável para ela, não tem nenhum título para exigir, do” Courier”, de Boston, a entrega da soma proposta de 2,500 francos.

A experiência feita nos Estados Unidos, a propósito dos médiuns lembra aquela que se fez, há uma dezena de anos, para ou contra os sonâmbulos lúcidos, quer dizer, magnetizados. A Academia de Ciência recebeu a missão de conceder um premio de 2.500 francos ao sujet magnético que lesse de olhos fechados. Todos os sonâmbulos fazem, voluntariamente, esse exercício, em seus salões ou em público; lêem em livros fechados e decifram uma carta inteira, sentando-se em cima de onde a colocaram, bem dobrada e fechada, ou sobre seu ventre; mas, diante da Academia não pôde nada ler de todo e o prêmio não foi ganho.

Essa experiência prova, uma vez mais, da parte de nossos antagonistas, sua ignorância absoluta dos princípios sobre os quais repousam os fenômenos espíritas. Entre eles, há uma idéia fixa de que esses fenômenos devem obedecer à vontade, e se produzirem com a precisão de uma máquina. Esquecem, totalmente, ou, dizendo melhor, não sabem que a causa desses fenômenos é inteiramente moral, que as inteligências que lhes são os primeiros agentes, não estão ao capricho de quem quer que seja, nem mais de médiuns do que de outras pessoas. Os Espíritos agem quando lhes apraz, e diante de quem lhes apraz; frequentemente é quando menos se espera que a manifestação ocorre com maior energia, e quando é solicitada, ela não ocorre.

Os Espíritos têm condições de ser que nos são desconhecidas; o que está fora da matéria não pode estar submetido ao cadinho da matéria. É, pois, equivocar-se, julgá-los do nosso ponto de vista. Se crêem útil se revelarem por sinais particulares, o fazem, mas, isso, jamais à nossa vontade, nem para satisfazer uma vã curiosidade. É preciso, por outro lado, considerar uma causa bem conhecida que afasta os Espíritos: sua antipatia por certas pessoas, principalmente por aquelas que, através de perguntas sobre coisas conhecidas, querem pôr a sua perspicácia em prova. Quando uma coisa existe, diz-se, eles devem sabê-la; ora, é precisamente porque a coisa nos é conhecida ou tendes de meios de verificá-la por vós mesmos, que eles não se dão ao trabalho de responder; essa suspeição os irrita e deles não se obtém nada de satisfatório; ela afasta, sempre, os Espíritos sérios que não falam, voluntariamente, senão às pessoas que a eles se dirigem com confiança e sem dissimulação. Disso não temos, todos os dias, exemplos entre nós? Homens superiores, e que têm consciência de seu valor, se alegrariam em responder a todas as tolas perguntas que tenderiam a lhes submeter a um exame, como escolares? Que diriam se lhes dissessem: “Mas, se não respondeis, é porque não sabeis?” Eles vos voltariam as costas: é o que fazem os Espíritos.

Se assim é, direis, de qual meio dispomos para nos convencer? No próprio interesse da Doutrina dos Espíritos, não devem desejar fazer prosélitos? Responderemos que é ter bastante orgulho em crer-se alguém indispensável ao sucesso de uma causa; ora, os Espíritos não amam os orgulhosos. Eles convencem aqueles que o desejam; quanto aos que crêem na sua importância pessoal, provam o pouco caso que deles fazem, não os escutando. Eis, de resto, sua resposta a duas perguntas sobre esse assunto:

- Podem pedir-se, aos Espíritos sinais materiais como prova da sua existência e da sua força?

- Pode-se, sem dúvida, provocar certas manifestações, mas nem todo o mundo está apto para isso, e, frequentemente, o que perguntais não o obtendes; eles não estão ao capricho dos homens.

- Mas quando uma pessoa pede esses sinais para se convencer, não haveria utilidade em satisfazê-la, uma vez que seria um adepto a mais?

- Os Espíritos não fazem senão aquilo que querem, e o que lhes é permitido. Falando-vos e respondendo as vossas perguntas, atestam a sua presença; isso deve bastar ao homem sério que procura a verdade na palavra.

Escribas e fariseus disseram a Jesus: “Mestre, muito gostaríamos que nos fizésseis ver algum prodígio. Jesus respondeu: Esta raça má e adúltera pede um prodígio, e não se lhe dará outro senão aquele de Jonas”. (São Mateus).

Acrescentaremos, ainda, que é conhecer bem pouco a natureza e a causa das manifestações para crer estimulá-las com um prêmio qualquer. Os Espíritos desprezam a cupidez, do mesmo modo que o orgulho e o egoísmo. E só essa condição pode ser, para eles, um motivo de se absterem de se comunicarem.

Sabei, pois, que obtereis cem vezes mais de um médium desinteressado do que daquele que é movido pela atração do ganho, e que um milhão não faria ocorrer o que não deve ser. Se nós nos espantamos com uma coisa, é que se tenha procurado médiuns capazes de se submeterem a uma prova que tinha por aposta uma soma de dinheiro.

Allan Kardec.

 

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O Fantasma da Senhorita Clairon

 

Fevereiro de 1858

 

(A Senhorita Clairon, nascida em 1723, morreu em 1803. Estreou na companhia italiana com a idade de 13 anos, e na Comédia Francesa em 1743. Retirou-se do teatro em 1765, com a idade de 42 anos).

Esta história produziu muito ruído em seu tempo, pela posição da heroína e pelo grande número de pessoas que lhe foram testemunhas. Malgrado sua singularidade, ela seria provavelmente esquecida se a senhorita Clairon não a houvesse consignado em suas Memórias, de onde extraímos a narração que dela vamos fazer. A analogia que ela apresenta com alguns fatos que se passam em nossos dias, lhe dará um lugar natural nesta Coletânea.

A Senhorita Clairon, como se sabe, era mais notável pela sua beleza do que pelo seu talento como cantora e atriz trágica; tinha inspirado, a um jovem bretão, Senhor de S..., uma dessas paixões que, frequentemente, decidem da vida, quando não se tem bastante força de caráter para dela triunfar. A ela, a senhorita Clairon, não respondia senão pela amizade; todavia, as assiduidades do senhor de S... se lhe tornaram de tal modo importunas, que resolveu romper tudo com relação a ele. O desgosto que disso ele sentiu lhe causou uma longa enfermidade da qual morreu. A coisa se passou em 1743. Deixemos a senhorita Clairon falar:

“Dois anos e meio haviam decorrido entre o nosso conhecimento e a sua morte. Ele me rogou conceder, aos seus últimos momentos, a doçura de me ver ainda; os que me rodeavam me impediram de fazer essa visita. Ele morreu não tendo, perto de si, senão os seus domésticos, e uma velha dama, única sociedade que teve, desde há muito tempo. Habitava, então, a Rempart, perto da Chaussée-d´Antin, onde se começava a construir, eu, à rua Bussy, perto da rua Seine e Abadia Saint-Germain. Tinha minha mãe, e vários amigos vieram jantar comigo... Vinha de cantar muito lindas canções de pastores, com as quais meus amigos estavam no arrebatamento, quando, pelas onze horas sucedeu o grito, o mais agudo. Sua sombria modulação e sua duração, espantaram todo o mundo; senti-me desfalecer, e estive, quase um quarto de hora desacordada...”.

“Todos os meus, amigos, vizinhos, a própria policia, ouviam o mesmo grito, sempre à mesma hora, sempre partindo de sob a minha janela, e não parecendo sair senão do vago ar... Raramente jantava na cidade, mas, nos dias que jantava não se ouvia nada, e, várias vezes, perguntando por suas novidades, à minha mãe, quando reentrava no meu quarto, partia do meio de nós. Uma vez o presidente do de B..., com o qual havia jantado, quis me reconduzir para se assegurar de que nada me tinha acontecido no caminho. Como me desejasse boa-noite na minha porta, o grito partiu entre ele e mim. Assim como toda Paris, ele sabia essa história: todavia, refugiou-se em sua carruagem, mais morto do que vivo”.

“Uma outra vez, pedi ao meu camarada Rosely para me acompanhar à rua Saint-Honoré para escolher tecidos. O único assunto da nossa conversa foi o meu fantasma (era assim que o chamava). Esse jovem, cheio de espírito, não crendo em nada, entretanto, estava tocado pela minha aventura; instou-me a evocar o fantasma, prometendo-me que nele creria, se me respondesse. Seja por fraqueza, seja por audácia, fiz o que me pedia: o grito saiu em três reprises, terríveis pelo seu estrondo e sua rapidez. No nosso retorno, foi preciso o socorro de toda a casa para nos tirar da carruagem, onde estivemos sem conhecimento um do outro. Depois desta cena, fiquei alguns meses sem nada ouvir. Acreditava-me livre para sempre, e me enganava”.

“Todos os espetáculos haviam sido mandados para Versailes, para pó casamento do Delfim. Havia-me arrumado, na Avenida de Saint-Cloud, um quarto que ocupava com a senhora Grandval. Às três horas da manhã, eu lhe disse: Estamos no fim do mundo; ao grito seria embaraçoso ter que nos procurar aqui... Ele saiu! A senhora Grandval acreditou que o inferno todo estivesse no quarto; ela correu, de camisa, de alto a baixo da casa, onde ninguém pode fechar o olho durante a noite; mas, ao menos, foi a última vez que se fez ouvir”.

“Sete ou oito dias depois, conversando com a minha roda costumeira, o sino de onze horas foi seguido de um tiro de fuzil, dado em uma das minhas janelas. Todos nós ouvimos o tiro; todos vimos o fogo; a janela não tinha nenhum tipo de dano. Concluímos todos, que queriam a minha vida, que haviam errado o alvo e que seria preciso tomar precauções para o futuro. O senhor de Marville, então tenente de polícia, foi visitar as casas defronte a minha; a rua foi repleta de todos os espiões possíveis, mas, quaisquer cuidados que se tivessem tomado, o tiro, durante três meses inteiros, foi ouvido, visto, dado sempre à mesma hora, na mesma vidraça, sem que ninguém tivesse jamais podido ver de que sitio partia. Esse fato foi constatado nos registros da polícia”.

“Acostumada com o meu fantasma, que achava um rapaz bastante bom, uma vez que se conservava em enganos sagazes, não tomando consciência da hora que era, fazendo muito calor, abri a janela eleita e, o intendente e eu nos apoiamos sobre o balcão. Soam onze horas, o tiro parte e nos lança todos os dois, no meio do quarto, onde caímos como mortos. Retornando a nós mesmos, sentindo que não tínhamos nada, reconhecendo que havíamos recebido, ele sobre a face esquerda, eu sobre a face direita, a mais terrível bofetada que se tenha jamais aplicado, nos pusemos a rir como dois loucos”.

“Dois dias depois, convidada pela senhorita Dumesnil para estar numa pequena festa noturna, que dava na sua casa da Barrière Blanche, tomei uma carro de praça, às onze horas, com minha aia. Fazia o mais belo luar, e fomos conduzidas pelos bulevares que começavam a se encher de casas. Minha aia me disse: Não foi aqui que morreu o senhor de S...? – Segundo as notícias que me deram, deve ser, disse-lhe, designando com meu dedo, uma das duas casas ali diante de nós. De uma delas partiu esse mesmo tiro de fuzil que me perseguia: atravessa a nossa viatura; o cocheiro dobra sua marcha, crendo-se atacado por ladrões. Chegamos ao encontro, fazendo força para refrear nossos sentidos, e, de minha parte, penetrada de um terror que conservei por muito tempo, o confesso; mas, essa explosão foi a última, das armas de fogo”.

“À sua explosão, sucedeu um estalar de mãos, com certo compasso e redobros. Esse ruído, ao qual a bondade do público me havia acostumado, não me deixou fazer nenhuma observação, durante muito tempo; meus amigos a fizeram por mim. Nós espreitamos, disseram-me: é às onze horas, quase sob vossa porta que ele ocorre; nós o ouvimos, não vimos ninguém, por isso não pode ser senão uma conseqüência daquilo que haveis experimentado. Como esse ruído não tinha nada de terrível, não conservei a data da sua duração.

Não prestei mais atenção aos sons melodiosos que se fizeram ouvir depois; parecia que uma voz celeste dava o esboço da ária nobre e tocante que ela ia cantar; essa voz começava na esquina de Bussy e terminava na minha porta; e, como ocorreu com todos os outros sons precedentes, ouvia-se e não se via nada. Enfim, tudo cessou depois de um pouco mais de dois anos e meio”.

Daí a algum tempo, a senhorita Clairon recebe, da senhora idosa que tinha sido a amiga devotada do senhor S... , o relato dos seus últimos momentos. “Ele contava, disse-lhe, todos os minutos, até as dez horas e meia, quando seu lacaio veio dizer que, decididamente, não vínheis. Depois de um momento de silêncio, ele aperta-me a mão com um redobramento de desespero que me assusta. A bárbara!... – com isso não ganhará nada; eu a perseguirei tanto depois da minha morte como a persegui durante a minha vida!... Quis tratar de acalmá-lo, mas, estava morto”.

Na edição que temos sob os olhos, o relato está precedido da nota seguinte, sem assinatura:

“Eis uma anedota bem singular da qual se fez, e se fará, sem dúvida, muitos juízos diferentes. Ama-se o maravilhoso, mesmo sem nele crer; a senhorita Clairon parecia convencida da realidade dos fatos que ela conta. Contentar-nos–emos em anotar que, no tempo em que ela foi ou se acreditou atormentada por seu fantasma, tinha vinte e dois anos e meio a vinte e cinco anos, que é a idade da imaginação, e que essa faculdade era continuamente exercida e exaltada, nela, pelo gênero de vida que levava no teatro. Pode-se lembrar, ainda, que ela disse, no início das suas Memórias, que, em sua infância, não se entretinha senão com aventuras de fantasmas e de feiticeiros, que se lhe disse serem histórias verdadeiras”.

Não conhecendo o fato senão pelo relato da senhorita Clairon, não podemos julgá-lo senão por indução; ora, eis o nosso raciocínio. Esse acontecimento, descrito em seus mais minuciosos detalhes pela própria senhorita Clairon, tem mais autenticidade do que se tivesse sido narrado por um terceiro. Acrescentemos que, quando ela escreveu a carta, na qual ele se acha relatado, tinha ao redor de sessenta anos, e passada a idade da credulidade, da qual fala o autor da nota. Esse autor não põe em dúvida a boa fé da senhoria Clairon, sobre a sua aventura, unicamente pensa que ela pode ter sido o joguete de uma ilusão. Que o fosse uma vez, isso não seria nada espantoso, mas, que tenha sido durante dois anos e meio, isso nos parece mais difícil; parece-nos mais difícil ainda supor que essa ilusão foi partilhada por tantas pessoas, testemunhas oculares e auriculares dos fatos, e pela própria policia. Para nós, que conhecemos o que pode se passar nas manifestações espíritas, a aventura nada tem que possa nos surpreender, e a temos por provável. Nesta hipótese, não hesitamos em pensar que o autor de todas essas más ações, não era outro senão a alma, ou Espírito, do Senhor de S... , se anotarmos, sobretudo, a coincidência das suas últimas palavras com a duração dos fenômenos. Ele havia dito: Eu a perseguirei tanto depois da minha morte, como durante a minha vida. Ora, suas relações com a senhorita Clairon duraram dois anos e meio, justo tanto tempo quanto o das manifestações que seguiram a sua morte.

Algumas palavras, ainda, sobre a natureza desse Espírito. Não era mau, e é com razão que a senhorita Clairon o qualifica como bastante bom rapaz, mas, não se pode dizer, no entanto, que foi a própria bondade. A paixão violenta, à qual sucumbiu, como homem, prova que, nele, as idéias terrestres eram dominantes. Os traços profundos dessa paixão, que sobreviveu à destruição do corpo, provam que, como Espírito, estava, ainda, sob a influência da matéria. Sua vingança, por inofensiva que fosse, denota sentimentos pouco elevados. Se, pois, se se quiser reportar ao nosso quadro de classificação dos Espíritos, não será difícil assinalar a sua classe; a ausência de maldade real, naturalmente, descarta a última classe, a dos Espíritos impuros; mas, evidentemente, ligava-se a outras classes da mesma ordem; nada, nele, poderia justificar-lhe uma classe superior.

Uma coisa digna de nota é a sucessão dos diferentes modos pelos quais manifestou a sua presença. Foi no mesmo dia e no momento da sua morte que ele se fez ouvir pela primeira vez, e isso no meio de um alegre jantar. Quando vivo, via a senhorita Clairon pelo pensamento, rodeada da auréola que a imaginação empresta ao objeto de uma paixão ardente; mas, uma vez a alma desembaraçada do seu véu material, a ilusão dá lugar à realidade. Ele está aí, ao seu lado, e ave rodeada de amigos, tudo devendo aumentar seu ciúme; ela parece, pela sua jovialidade e pelos seus cantos, insultar o seu desespero, e o seu desespero se traduz por um grito de raiva que repete, cada dia, à mesma hora, como para lhe reprovar sua recusa em ir consolá-lo em seus últimos momentos. Aos gritos, sucedem os tiros de fuzil, inofensivos, é verdade, mas, que não denotam menos uma raiva impotente e a vontade de perturbar o seu repouso. Mais tarde, o seu desespero toma um caráter mais calmo; retorna, sem dúvida, a idéias mais sadias, e parece haver tomado partido; resta-lhe a lembrança dos aplausos dos quais ela era objeto, e os repete. Mais tarde, enfim, lhe diz adeus, fazendo-a ouvir sons que pareciam eco dessa voz melodiosa que o havia fascinado tanto em vida.

Allan Kardec.

 

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O Senhor Home - Artigo 01

Fevereiro de 1858

 

Os fenômenos realizados pelo Senhor Home produziram tanto mais sensações porque vieram confirmar as narrações maravilhosas chegadas de além-mar, e a cuja veracidade se ligou uma certa desconfiança. Ele nos mostrou que, deixando de lado a maior possibilidade ao exagero, deles restou o bastante para confirmar a realidade de fatos cumprindo-se fora de todas as leis conhecidas.

Tem-se falado do Senhor Home em sentidos muito diversos, e confessamos que seria preciso muito para que todo o mundo lhe fosse simpático, uns por espírito de sistema, outros por ignorância. Queremos mesmo admitir, nestes últimos, uma opinião conscienciosa, pela falta de terem podido constatar os fatos por si mesmos; mas se, nesse caso, a dúvida é permitida, uma hostilidade sistemática e apaixonada está sempre deslocada. Em todo o estado de processo, julgar o que não se conhece é uma falta de lógica, o de apreciar sem provas é um esquecimento das conveniências. Façamos, por um instante, abstração da intervenção dos Espíritos, e não vejamos, nos fatos narrados, senão simples fenômenos físicos. Quanto mais esses fatos sejam estranhos, mais merecem atenção. Explicai-os como quiserdes, mas não os contesteis a priori, se não quiserdes fazer duvidar do vosso julgamento. O que deve espantar, e o que nos parece mais anormal ainda do que os fenômenos em questão, é de ver esses mesmos que deblateram, sem cessar, contra a oposição de certos corpos sólidos com relação à idéias novas, que lhes lançam, incessantemente, à face, e isso em termos os mais circunspetos, os dissabores suportados pelos autores das mais importantes descobertas, Fulton, Jenner e Galileu, que citam a toda hora, eles mesmos caírem num defeito semelhante, eles que dizem, com razão, que há poucos anos ainda, quem houvesse falado em se corresponder, em alguns segundos, de um canto do mundo ao outro, teria passado por insensato. Se crêem no progresso, do qual se dizem apóstolos, que sejam, pois, coerentes consigo mesmos, e não atraiam para si a censura que endereçam aos outros de negarem o que não compreendem.

Voltemos ao Senhor Home. Chegado a Paris no mês de outubro de 1855, encontrou-se, desde o início, lançado no mundo mais elevado, circunstância que deveria ter imposto mais circunspecção no julgamento que se lhe fez, porque quanto mais o mundo é elevado e esclarecido, menos é suspeito de estar sendo benevolentemente enganado por um aventureiro. Mesmo essa posição tem suscitado comentários. Pergunta-se quem é o Senhor Home. Para viver neste mundo, para fazer viagens custosas, diz-se, é necessário que se tenha fortuna. Se não a tem, é preciso que seja sustentado por pessoas poderosas. Alinhavarem-se, sobre esse tema, mil suposições, uma mais ridícula do que as outras. O que não se disse também de sua irmã, que ele veio procurar, há um ano mais ou menos; era, dizia-se, um médium mais poderoso do que ele; os dois deveriam realizar prodígios de fazerem empalidecer os de Moisés. Mais de uma vez, perguntas nos foram dirigidas a esse respeito; eis a nossa resposta:

O Senhor Home, vindo à França, não se dirigiu ao público; ele não ama e nem procura a publicidade. Se tivesse vindo com objetivo de especulação, teria corrido o país solicitando a propaganda em sua ajuda; teria procurado todas as ocasiões de se promover, ao passo que as evita; teria posto um preço às suas manifestações, ao passo que ele não pede nada a ninguém. Malgrado a sua reputação, o Senhor Home não é, pois, o que se pode chamar um homem público, sua vida privada só pertence a ele. Do momento que nada pede, ninguém tem o direito de inquirir como vive, sem cometer uma indiscrição. É sustentado por pessoas poderosas? Isso não nos diz respeito; tudo o que podemos dizer é que, nessa sociedade de elite, conquistou simpatias reais e fez amigos devotados, ao passo que a um prestidigitador diverte-se se o paga, e tudo está dito. Não vemos no Senhor Home senão uma coisa: um homem dotado de uma faculdade notável. O estudo dessa faculdade é tudo o que nos interessa, e tudo o que deve interessar a quem não esteja movido unicamente pelo sentimento da curiosidade. A história ainda não abriu, sobre ele, o livro dos seus segredos; até lá, ele não pertence senão à ciência. Quanto à sua irmã, eis a verdade: é uma criança de onze anos, que foi conduzida a Paris para a sua educação, da qual está encarregada uma ilustre pessoa. Sabe com dificuldade em que consiste a faculdade do seu irmão. É bem simples, como se vê, bem prosaico para os apreciadores do maravilhoso.

Agora, por que o Senhor Home veio à França? Não foi para procurar fortuna, como acabamos de provar. Foi para conhecer o país? Ele não o percorre; sai pouco, e não tem, de modo algum, os hábitos de um turista. O motivo patente foi o conselho dos médicos, que acreditaram o ar da Europa necessário à sua saúde, mas os fatos mais naturais, freqüentemente, são providenciais. Pensamos, pois, que se veio foi porque deveria para aqui vir. A França, ainda na dúvida no que concerne às manifestações espíritas, tinha necessidade de que um grande lance fosse cunhado; o Senhor Home foi quem recebeu essa missão, e quanto mais o lance tocou alto, mais teve de ressonância. A posição, o crédito, as luzes daqueles que o acolheram, e que ficaram convencidos pela evidência dos fatos, abalaram as convicções de uma multidão de pessoas, mesmo entre aquelas que não puderam ser testemunhas oculares. A presença do Senhor Home, pois, terá sido um poderoso auxiliar para a propagação das idéias espíritas; se não convenceu a todo o mundo, lançou sementes que frutificarão tanto mais quanto os próprios médiuns se multiplicarão. Essa faculdade, como, aliás, já o dissemos, não é um privilégio exclusivo; ela existe em estado latente, e em diversos graus, numa multidão de indivíduos, não esperando senão uma ocasião para se desenvolver; o princípio está em nós pelo próprio efeito da nossa organização; está na Natureza; todos nós temo-lo em germe, e não está longe o dia em que veremos os médiuns surgirem de todos os pontos, no nosso meio, em nossas famílias, no pobre como no rico, a fim de que a verdade seja conhecida por todos, porque, segundo o que nos está anunciado, é uma nova era, uma nova fase que começa para a Humanidade. A evidência e a vulgarização dos fenômenos espíritas darão um novo curso às idéias morais, como o vapor deu um novo curso à indústria.

Se a vida privada do Senhor Home deve estar fechada às investigações de uma indiscreta curiosidade, há certos detalhes que podem, a justo título, interessar o público, e que é mesmo útil conhecer pela apreciação dos fatos.

O Senhor Daniel Dunglas Home nasceu em 15 de março de 1833, perto de Edimbourg. Tem, pois, hoje, 24 anos. Descende de antiga e nobre família dos Dunglas da Escócia, outrora soberana. É um jovem de talhe mediano, louro, cuja fisionomia melancólica nada tem de excêntrico; é de compleição muito delicada, de costumes simples e suaves, de um caráter afável e benevolente sobre o qual o contato das grandezas não lançou nem arrogância e nem ostentação. Dotado de uma excessiva modéstia, jamais exibiu a sua maravilhosa faculdade, jamais falou de si mesmo, e se, na expansão da intimidade, conta coisas que lhe são pessoais, é com simplicidade, e jamais com a ênfase própria das pessoas com as quais a malevolência procura compará-lo. Vários fatos íntimos, que são do nosso conhecimento pessoal, provam nele nobres sentimentos e uma grande elevação de alma; nós o constatamos com tanto maior prazer quanto se conhece a influência das disposições morais sobre a natureza das manifestações.

Os fenômenos maravilhosos dos quais o Senhor Home é o instrumento involuntário, têm sido, por vezes, contados por amigos muito zelosos, com um entusiasmo exagerado, do qual se apodera a malevolência. Tais que sejam, não poderiam ter necessidade de uma ampliação, mais nociva do que útil à causa. Sendo o nosso objetivo o estudo sério de tudo o que se liga à ciência espírita, nos limitaremos na estrita realidade dos fatos constatados por nós mesmos ou pelas testemunhas oculares, mais dignas de fé. Poderemos, pois, comentá-los com a certeza de não raciocinar sobre coisas fantásticas.

O Senhor Home é um médium do gênero daqueles que produzem manifestações ostensivas, sem excluir, por isso, as comunicações inteligentes; mas as suas predisposições naturais lhe dão, para as primeiras, uma aptidão mais especial. Sob a sua influência, os mais estranhos ruídos se fazem ouvir, o ar se agita, os corpos sólidos se movem, se erguem, se transportam de um lugar a outro através do espaço, instrumentos de música fazem ouvir sons melodiosos, seres do mundo extra-corpóreo aparecem, falam, escrevem e, freqüentemente, vos abraçam até causar dor. Ele mesmo foi visto, várias vezes, em presença de testemunhas oculares, elevado sem sustentação a vários metros de altura.

Do que nos foi ensinado sobre a classe dos Espíritos que produzem, em geral, essas espécies de manifestações, não seria preciso disso concluir que o Senhor Home não está em relação senão com a classe ínfima do mundo espírita. Seu caráter e as qualidades morais que o distinguem, devem, ao contrário, granjear-lhe a simpatia dos Espíritos superiores; ele não é, para estes últimos, senão um instrumento destinado a abrir os olhos dos cegos por meios enérgicos, sem estar, por isso, privado de comunicações de uma ordem mais elevada. É uma missão que aceitou; missão que não está isenta nem de tribulações e nem de perigos, mas que cumpre com resignação e perseverança, sob a égide do Espírito de sua mãe, seu verdadeiro anjo guardião.

A causa das manifestações do Senhor Home é inata nele; sua alma, que parece não prender-se ao corpo senão por fracos laços, tem mais afinidade pelo mundo espírita do que pelo mundo corpóreo; por isso, ela se separa sem esforços, e entra, mais facilmente do que em outros, em comunicação com os seres invisíveis. Essa faculdade se revelou nele desde a mais tenra infância. Com a idade de seis meses, seu berço se balançava inteiramente sozinho, na ausência da sua babá, e mudava de lugar. Nos seus primeiros anos, era tão débil que tinha dificuldade para se sustentar sentado sobre um tapete, os brinquedos que não podia alcançar, vinham, eles mesmos, colocar-se ao seu alcance. Com três anos teve as suas primeiras visões, mas não lhes conservou a lembrança. Tinha nove anos quando a sua família foi se fixar nos Estados Unidos; aí os mesmos fenômenos continuaram com uma intensidade crescente, à medida que avançava em idade, mas a sua reputação, como médium, não se estabeleceu senão em 1850, por volta da época em que as manifestações espíritas começaram a se tornar populares nesse país. Em 1854, veio para a Itália, nós o dissemos, por sua saúde; espanta Florença e Roma com verdadeiros prodígios. Convertido a fé católica, nessa última cidade, tomou a obrigação de romper as suas relações com o mundo dos Espíritos. Durante um ano, com efeito, seu poder oculto parece tê-lo abandonado; mas como esse poder estava acima da sua vontade, ao cabo desse tempo, assim como lhe havia anunciado o Espírito de sua mãe, as manifestações se reproduziram com uma nova energia. Sua missão estava traçada; deveria distinguir-se entre aqueles que a Providência escolheu para nos revelar, por sinais patentes, a força que domina todas as grandezas humanas.

Se o Senhor Home não fora, como o pretendem certas pessoas que julgam sem ter visto, senão um hábil prestidigitador, teria sempre, sem nenhuma dúvida, à sai disposição peças em sua sacola, ao passo que não é senhor de produzi-las à vontade. Ser-lhe-ia, pois, impossível ter sessões regulares, porque, freqüentemente, seria no momento em que teria necessidade que a sua faculdade lhe faltaria. Os fenômenos se manifestam, algumas vezes, espontaneamente, no momento em que menos são esperados ao passo que, em outras, se é impotente para provocá-los, circunstância pouco favorável a quem quisesse fazer exibições em horas fixadas. O fato seguinte, tomado entre mil, disso é uma prova. Desde há mais de quinze dias, o Senhor Home não tinha podido obter nenhuma manifestação, quando, estando a almoçar na casa de um dos seus amigos, com duas ou três pessoas do seu conhecimento, os golpes se fazem súbito ouvir nas paredes, nos moveis e no teto. Parede, disse, que voltam. O Senhor Home, nesse momento, estava sentado no sofá com um amigo. O doméstico traz a bandeja de chá e se apressa em colocá-la sobre a mesa situada no meio do salão; esta, embora fosse pesada, se eleva subitamente e se destaca do solo em 20 a 30 centímetros de altura, como se tivesse sido atraída pela bandeja; apavorado, o criado deixa-as escapar, e a mesa, de um pulo, se atira em direção do sofá e vem cair diante do Senhor Home e seu amigo, sem que nada do que estava em cima tivesse se desarrumado. Esse fato, sem contradita, não é o mais curioso daqueles que teríamos a relatar, mas apresenta essa particularidade, digna de nota, de ter se produzido espontaneamente, sem provocação, num círculo íntimo, onde nenhum dos assistentes, cem vezes testemunhas de fatos semelhantes, tinha necessidade de novos testemunhos; seguramente, não era o caso para o Senhor Home de mostrar as suas habilidades, se habilidade havia.

Num próximo artigo, citaremos outras manifestações. (Fim do 1º. Artigo).

Allan Kardec.

 

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O Senhor Home - Artigo 02

Março de 1858

 

O Senhor Home, assim como dissemos, é um médium do gênero daqueles sob a influência dos quais se produzem, especialmente, fenômenos físicos, sem excluir, por isso, as manifestações inteligentes. Todo efeito que revela a ação de uma vontade livre é, por isso mesmo, inteligente; quer dizer, que não é puramente mecânico e que não poderia ser atribuído a um agente exclusivamente material; mas daí às comunicações instrutivas de uma alta importância, moral e filosófica, há uma grande distância, e não é do nosso conhecimento que o senhor Home as obtém dessa natureza. Não sendo médium escrevente, a maioria das respostas são dadas por pancadas, indicando as letras do alfabeto, meio sempre imperfeito e muito lento, que se presta dificilmente aos desenvolvimentos de uma certa extensão. Ele obtém, não obstante, também a escrita, mas por um outro meio, do qual falaremos dentro em pouco.

Diremos, primeiro, como princípio geral, que as manifestações ostensivas, as que ferem os nossos sentidos, podem ser espontâneas ou provocadas. As primeiras são independentes da vontade; freqüentemente, têm mesmo lugar contra a vontade daquele das quais são objeto, e ao qual não são sempre agradáveis. Os fatos desse gênero são freqüentes, e, sem remontar às narrações mais ou menos autênticas dos tempos recuados, a história contemporânea delas nos oferece numerosos exemplos cuja causa, ignorada a princípio, é hoje perfeitamente conhecida: tais são, por exemplo, os ruídos insólitos, o movimento desordenado dos objetos, as cortinas puxadas, as cobertas arrancadas, certas aparições, etc. Algumas pessoas são dotadas de uma faculdade especial que lhes dá o poder de provocarem esse fenômeno, pelo menos em parte, por assim dizer, à vontade. Essa faculdade não é muito rara, e, sobre cem pessoas, cinqüenta ao menos a possuem em um grau mais ou menos grande. O que distingue o senhor Home, é que se desenvolveu nele, como nos médiuns de sua força, de um modo, por assim dizer, excepcional. Alguém, não obterá senão golpes leves, ou o deslocamento insignificante de uma mesa, ao passo que sob a influência do senhor Home os ruídos, os mais retumbantes, se fazem ouvir, e todo o mobiliário de um quarto pode ser revirado, os moveis montando uns sobre os outros. Por estranhos que sejam esses fenômenos, o entusiasmo de alguns admiradores, muito zelosos, ainda encontra meios de ampliá-los com fatos de pura invenção. Por outro lado, os detratores não permanecem inativos; contam, sobre ele, toda espécie de chistes que não existiram senão na sua imaginação. Eis aqui um exemplo:

M., Marquês de..., um dos personagens que tiveram o maior interesse no senhor Home, e em cuja casa era recebido na intimidade, se encontrava um dia na Ópera com este último. Na orquestra estava o senhor P..., um dos nossos assinantes, que os conhecia pessoalmente, um e outro. Seu vizinho entabula conversação com ele; cai sobre o senhor Home, “Acreditaríeis, disse ele, que esse pretenso feiticeiro, esse charlatão, encontrou meios de se introduzir na casa do marquês de...; mas seus artifícios foram descobertos, e foi posto na rua a pontapés, como um vil intrigante”.

“- Estais bem seguro! Disse o senhor de P..., e conheceis M..., o marquês de...? – Certamente, responde o interlocutor. – Nesse caso, disse o senhor de P..., olhai bem naquele camarote, podereis vê-lo em companhia do próprio senhor Home, ao qual não tem o ar de dar pontapés”.

Neste momento, nosso azarado narrador, não julgando a ocasião favorável para continuar a conversa, tomou seu chapéu e não reapareceu mais. Pode-se julgar, por aí, o valor de certas afirmativas. Seguramente, se certos fatos espalhados pela malevolência fossem reais, ter-lhe-iam fechado mais de uma porta; mas, como as casas mais honradas, sempre lhe estiveram abertas, disso se deve concluir que ele sempre, e por toda parte, se conduziu como um homem distinto. Aliás, basta ter falado, algumas vezes, com o senhor Home, para ver que com a sua timidez e a simplicidade do seu caráter, seria o mais desajeitado de todos os intrigantes; insistimos nesse ponto pela moralidade da causa. Voltemos às suas manifestações. Sendo o nosso objetivo fazer conhecer a verdade no interesse da ciência, tudo o que relatarmos foi haurido em fontes de tal modo autênticas, que podemos garantir-lhes a mais escrupulosa exatidão; temos testemunhas oculares muito sérias, muito esclarecidas e colocadas muito alto para que a sua sinceridade possa ser posta em dúvida. Se se dissesse que essas pessoas puderam, de boa-fé, serem vítimas de uma ilusão, responderíamos que há circunstâncias que escapam a toda suposição desse gênero; aliás, essas pessoas estavam muito interessadas em conhecerem a verdade, para não se premunirem contra qualquer falsa aparência.

O senhor Home começa, geralmente, suas sessões pelos fatos conhecidos: pancadas em uma mesa ou em qualquer outra parte do apartamento, procedendo como dissemos alhures. Vem, em seguida, o movimento da mesa, que se opera primeiro pela imposição das mãos, só dele ou de várias pessoas reunidas, depois à distância e sem contato; é uma espécie de preparação. Muito freqüentemente, não se obtém nada de mais; isso depende da disposição em que se encontra e, algumas vezes, também da dos assistentes; há tais pessoas diante das quais jamais nada produziu, mesmo sendo seus amigos. Não nos estenderemos sobre esses fenômenos, hoje tão conhecidos, e que não se distinguem senão pela sua rapidez e sua energia. Freqüentemente, após várias oscilações e balanços, a mesa se desloca do solo, se eleva gradualmente, lentamente, por pequenas sacudidelas, não mais do que alguns centímetros, mas até o teto, e Dora do alcance das mãos; depois de estar suspensa alguns segundos no espaço, desce como subiu, lentamente, gradualmente.

A suspensão de um corpo inerte e de um peso específico incomparavelmente maior do que o do ar, sendo um fato adquirido, concebe-se que pode ocorrer o mesmo com um corpo animado. Não sabemos que o senhor Home tenha operado sobre nenhuma outra pessoa, senão sobre si mesmo, e, ainda, esse fato não se produziu em Paris, mas foi constatado que ocorreu, várias vezes, tanto em Florença como na França, e notadamente em Bordeaux, em presença das mais respeitáveis testemunhas, que poderemos citar, se necessário, igual à mesa, ele é elevado até o teto, depôs desce do mesmo modo. O que há de bizarro nesse fenômeno é que, quando ele se produz, não é por ato de sua vontade, e ele mesmo nos disse que dele não se apercebe, e crê estar sempre no solo, a menos que olhe para baixo; somente as testemunhas o vêem se elevar; quanto a ele, experimenta nesse momento a sensação produzida pela agitação de um navio sobre as ondas. De resto, o fato que narramos não é pessoal no senhor Home. Deles a história cita mais de um exemplo autêntico, que relataremos ulteriormente.

De todas as manifestações produzidas pelo senhor Home, a mais extraordinária é, sem contradita, a das aparições, por isso nelas insistiremos mais, em razão das graves conseqüências que delas decorrem e da luz que lançam sobre uma multidão de outros fatos. Ocorre o mesmo com sons produzidos no ar, com instrumento de música que tocam sozinhos, etc. Examinaremos esses fenômenos com detalhes em nosso próximo número.

O senhor Home, de retorno de uma viagem à Holanda, onde produziu, na corte e na mais alta sociedade, uma profunda sensação, acaba de partir para a Itália. Sua saúde, gravemente alterada, lhe faz necessário um clima mais ameno.

Confirmamos, com prazer, o que alguns jornais relataram, de um legado de 6.000 francos de renda, que lhe foi feito por uma dama inglesa, convertida por ele à Doutrina Espírita, e em reconhecimento da satisfação com que ele experimentou. O senhor Home merecia, sob todos os aspectos, esse honroso testemunho. Esse ato, da parte de uma doadora, é um precedente ao qual aplaudiremos, todos os que partilham as nossas convicções; esperemos que, um dia, a Doutrina terá o seu Mecenas: a posteridade inscreverá o seu nome entre os benfeitores da Humanidade. A religião nos ensina a existência da alma e a sua imortalidade; o Espiritismo disso nos dá prova palpável e viva, não mais pelo raciocínio, mas pelos fatos. O materialismo é um dos vícios da sociedade atual, porque engendra o egoísmo. O que há, com efeito, fora do eu para quem tudo relaciona com a matéria e a vida presente? A Doutrina Espírita, intimamente ligada às idéias religiosas, esclarecendo-nos sobre a nossa natureza, nos mostra a felicidade na prática das virtudes evangélicas; lembra o homem quanto aos seus deveres para com Deus, a sociedade e a si mesmo; ajudar a sua propagação é dar um golpe mortal na praga do ceticismo, que nos invade como um mal contagioso; honra, pois, àqueles que empregam, nessa obra, os bens com que Deus os favoreceu na Terra! (Fim do 2º. Artigo).

Allan Kardec

 

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O Senhor Home - Artigo 03

Março de 1858

 

Não é do nosso conhecimento que o senhor Home haja feito parecer, pelo menos visível para todo o mundo, outras partes do corpo senão as mãos. Cita-se, todavia, um general morto na Criméia, que teria aparecido, à sua viúva, visível só para ela; mas não estivemos no caso de constatar a realidade do fato em que se refere, sobretudo, à intervenção do senhor Home, nessa circunstância. Limitamo-nos àquilo que podemos afirmar. Por que as mãos antes que os pés ou uma cabeça? É o que ignoramos, e o que ele mesmo ignora. Os Espíritos, interrogados a esse respeito, responderam que outros médiuns poderiam fazer aparecer a totalidade do corpo; de resto, não está aí o ponto mais importante; se apenas as mãos aparecerem, as outras partes do corpo não serão menos patentes, como se verá dentro em pouco.

A aparição de mão se manifesta, geralmente, em primeiro lugar, sobre a toalha da mesa, por ondulações que produz, percorrendo toda a superfície; depois, se mostra sobre a borda da toalha que ergue; algumas vezes, vem se colocar sobre a toalha, no meio da própria mesa; freqüentemente, toma um objeto que coloca debaixo. Essa mão, visível para todo o mundo, não é vaporosa, nem translúcida; tem a cor e a opacidade naturais; no punho, termina pelo vago. Se é tocada com precaução, confiança e sem preconceito hostil, ela oferece a resistência, a solidez e a impressão de mão viva; seu calor é suave, úmido e comparável ao de um pombo morto há cerca de meia hora. Não é inerte, porque se agita, se presta aos movimentos que se lhe imprimem, ou resiste, vos acaricia ou vos aperta. Se, ao contrário, quereis tomá-la bruscamente e de surpresa, não tocais senão o vazio. Uma testemunha ocular nos contou o fato seguinte, que lhe é pessoal. Ele tinha, entre os seus dedos, uma campainha de mesa; uma mão, primeiro invisível, depois perfeitamente aparente, veio tomá-la, fazendo esforços para a arrancar; não podendo conseguir, passa por cima para fazê-la escorregar; o esforço de tração era tão sensível como se fora mão humana; tendo querido tomar vivamente essa mão, a sua não encontra senão o ar; tendo afastado os dedos, a campainha fica suspensa no espaço e vem, lentamente, pousar no assoalho.

Algumas vezes há várias mãos. A mesma testemunha nos relatou o fato seguinte. Várias pessoas estavam reunidas ao redor de uma dessas mesas de sala de jantar que se separam em duas. Golpes são dados; a mesa se agita, se abre por si mesma, e, através da fenda, aparecem três mãos, uma do tamanho natural, outra muito grande, e uma terceira toda velada; se tocadas, se apalpadas, vos apertam, depois de esvanecem. Na casa de um dos nossos amigos, que tinha perdido uma criança em tenra idade, foi a mão de uma criança recém-nascida que apareceu; todo mundo pôde vê-la e tocá-la; essa criança se coloca sobre sua mãe, que sente, distintamente, a impressão de todo o corpo sobre seus joelhos.

Freqüentemente, a mão vem pousar sobre vós, a vedes, ou, se não a vedes, sentis a impressão dos dedos; algumas vezes, vos acaricia, de outras vezes vos belisca até causar dor. O senhor Home, em presença de várias pessoas, sentiu assim agarrar o punho, e os assistentes puderam ver a pele puxada. Um instante depois sentiu morder, e a marca da impressão de dois dentes foi visivelmente assinalada durante mais de uma hora.

A mão que aparece pode também escrever. Algumas vezes se coloca no meio da mesa, toma o lápis e traça alguns caracteres sobre o papel colocado para esse fim. O mais freqüentemente leva o papel para sob a mesa e o traz todo escrito. Se a mão se mantém invisível, a escrita parece produzir-se toda sozinha. Obtém-se, por esse meio, resposta a diversas perguntas que se lhe podem dirigir.

Um outro gênero de manifestações, não menos notável, mas que se explica pelo que acabamos de dizer, é o de instrumentos de música tocando sozinhos. Comumente, são pianos ou acordeons. Nessa circunstância, vêem-se distintamente as teclas se agitarem e o fole mover-se. A mão que toca é ora visível, ora invisível; a música que se faz ouvir pode ser uma música conhecida, executada a pedido que se lhe faça. Se o artista invisível é deixado por si mesmo, produz acordes harmoniosos, cujo conjunto lembra a vaga e a suave melodia da harpa eólica. Na casa de um dos nossos assinantes, onde esses fenômenos se produziram muitas vezes, o Espírito que assim se manifestava, era o de um jovem morto desde há algum tempo e amigo da família, e que, quando vivo, tinha um notável talento como músico; a natureza das músicas que fazia ouvir de preferência, não poderia deixar nenhuma dúvida quanto à sua identidade, para as pessoas que o haviam conhecido.

O fato mais extraordinário, nesse gênero de manifestações, não é, no nosso entender, o da aparição. Se essa aparição fosse sempre aeriforme, concordaria com a natureza etérea que atribuímos aos Espíritos; ora, nada se oporia a que essa matéria etérea se tornasse perceptível à nossa visão por uma espécie de condensação, sem perder sua propriedade vaporosa. O que há de mais estranho é a solidificação dessa mesma matéria, bastante resistente para deixar uma impressão visível sobre os nossos órgãos. Daremos, no próximo número, a explicação desse singular fenômeno; conforme o ensinamento dos próprios Espíritos. Hoje, limitar-nos-emos em dele deduzir uma conseqüência relativa ao toque espontâneo dos instrumentos de música. Com efeito, desde que a tangibilidade temporária dessa matéria etérea é um fato adquirido, que nesse estado uma mão, aparente ou não, oferece bastante resistência para fazer uma pressão sobre os corpos sólidos, não há nada de espantoso em que possa exercer uma pressão suficiente para fazer mover as teclas de um instrumento. De outra parte, fatos não menos positivos provam que essa mão pertence a um ser inteligente; nada tem de espantoso que essa inteligência se manifeste por sons musicais, como pode fazê-lo pela escrita ou pelo desenho. Uma vez se entrando nessa ordem de idéias, as pancadas, o movimento dos objetos e todos os fenômenos espíritas de ordem material se explicam muito natural

 

 
 
 
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